Uma hipótese: se todos usassem a ironia como forma de comunicação, haveria um colapso linguístico no mundo, daí talvez o uso do colete salva-vidas, que está embaixo do assento. Mas que assento? Parece-me que o assento do livro de viagem, onde a viagem seja o livro (para aproveitar a epígrafe de Haroldo de Campos): lá estaria o colete salva-vidas.
Mas o que a ironia tem a ver com o uso de colete salva-vidas em Há um colete salva-vidas embaixo do seu assento, de Ana Paula El-Jaick? A ironia talvez “salve” o leitor e a própria escritora de estar escrevendo apenas um diário de viagem e transforme esse “livro de viagens” em um livro sobre livros e diários de viagens. A ironia, e digo também o humor que atravessa o livro, nos salvam de ficar olhando todas aquelas fotos de viagem que Ana, a personagem, fez em Paris – 1.257 fotografias de Paris com Ana no fundo de cada uma das 1.257 fotografias em Paris. Que alívio.
A prática, ou procedimento, é colocar a Ana escritora em situações possíveis da Ana viajante e, por meio da ironia e do humor, borrar os limites entre real e ficção, o que a crítica chama de autoficção. Talvez – essa é outra hipótese – Ana vá além, borrando inclusive o estatuto da autoficção. Por isso, eu gosto de pensar Há um colete salva-vidas embaixo do seu assento em antidiário: que tudo, ou quase tudo, que ali está escrito seja mesmo verdade, mas outra vez a lembrança de que há um “colete salva-vidas embaixo do assento” nos livre das verdades e nos faça divertir, identificarmo-nos com as aventuras amorosas e acadêmicas da personagem, “curtir” sua melancolia, ter saudade junto com ela, enfim, viajar junto com Ana em Paris.
Detalhes do produto
Editora : TextoTerritório; 1ª edição (3 julho 2018)
Idioma : Português
Capa comum : 198 páginas
ISBN-10 : 8565375471
ISBN-13 : 978-8565375474
Idade de leitura : 16 anos e acima
Dimensões : 12 x 1.1 x 18 cm